A arquitetura não faz parte da cultura brasileira — e a responsabilidade disso é nossa
Uma pesquisa com 10 mil brasileiros feita pelo Globo Gente + Quaest não incluiu a arquitetura entre as respostas ao que é cultura brasileira. Onde estamos errando? Um convite honesto ao próprio ofício.
A arquitetura não faz parte da cultura brasileira.
Não sou eu dizendo isso. É o que quase 10 mil pessoas responderam numa pesquisa realizada pelo Globo Gente em parceria com a Quaest. E essas mesmas pessoas cruzam o oceano para conhecer a cultura de outros países — visitando e fotografando o Coliseu e a Sagrada Família.
Onde estamos errando?
O que o brasileiro chama de cultura
O Brasil é mundialmente conhecido por sua riqueza e diversidade cultural. Mas o que nós brasileiros entendemos por cultura? Como enxergamos, vivenciamos e a reconhecemos? A pesquisa Cultura no Espelho foi atrás dessas respostas.
Quando perguntaram sobre o que pensam quando ouvem "cultura brasileira", apesar de fragmentadas e difusas, as respostas se concentraram em: música, comida, festa, história, tradições — até mesmo cinema e natureza foram mencionadas.
E sabe o que ficou de fora? A arquitetura.
O paradoxo
Como pode uma arquitetura tão rica, tão valorizada e reconhecida mundialmente não ser sequer mencionada como parte da nossa cultura?
Como é que passamos pelo barroco, pelo modernismo, pelo brutalismo e pela escola paulista — movimentos de enorme expressão e influência na nossa arquitetura — e ainda assim não enxergamos isso como cultura?
Como é que a UNESCO reconhece Brasília como patrimônio cultural da humanidade, e nós, aqui dentro, simplesmente deixamos a arquitetura de fora quando o assunto é cultura?
O que Bourdieu explica
A própria pesquisa diz que, mesmo sem conseguir defini-la, o brasileiro pratica cultura todos os dias. Inclusive através da arquitetura: em museus, igrejas, prédios públicos, praças, nas influências da casa em que ele mora.
No fim do estudo, os pesquisadores recorrem a Pierre Bourdieu para explicar por que a cultura se distribui de forma tão desigual. Bourdieu dizia que aquilo que uma sociedade passa a chamar de bom gosto não nasce sozinho — é definido por quem tem capital cultural, por quem ocupa os lugares de decisão estética e diz o que é sofisticado e o que é desejável.
E é aí que a pesquisa invoca também o nosso papel enquanto arquiteto. Porque temos grande influência na estética onde o brasileiro vive, transita, se relaciona. Somos nós que legitimamos o que entra num projeto e o que é referência.
Antes de cobrar do brasileiro, olhemos pra dentro
Antes de cobrar do brasileiro que ele reconheça a arquitetura como parte da nossa cultura, talvez valha a pena a gente olhar pra dentro.
- Será que não estamos chamando de arquitetura brasileira qualquer coisa que não tem origem aqui?
- Será que a gente não está importando estéticas e linguagens que não conversam com o nosso clima, com a nossa vegetação — e colando o rótulo de brasileira?
- Será que não fomos nós mesmos que, aos poucos, ensinamos o brasileiro a desejar o que é de fora, a tal ponto das pessoas não reconhecerem e não identificarem a arquitetura como forte expressão cultural do Brasil?
O que fazer com essa constatação
A pesquisa revela um país plural, orgulhoso dos seus símbolos e dos seus códigos — mas que ainda se sente distante quando o assunto é representação.
E se o brasileiro não reconhece a arquitetura como parte da nossa cultura, essa responsabilidade é nossa. Reverter isso passa por projetar um Brasil em que as pessoas se reconheçam — um Brasil onde elas olhem e sintam-se em casa.




